domingo, 13 de fevereiro de 2011

O NATAL DA LUZ

Era uma vez uma pequena vila que ficava numa encosta virada ao sol. Por isso deram-lhe o nome de Vila Luz. Nela, num enorme palácio rodeado por um belo jardim cheio de flores amarelas e cor-de-rosa, vivia uma duquesa. Era uma mulher elegante, mas egoísta e má chamada Cármen Valverde. Atrás do palácio Cármen havia uma fábrica de chocolates cuja marca, naturalmente, se chamava DUQUESA. Os seus chocolates, de todas as formas e tamanhos, faziam muito sucesso porque eram feitos a partir de uma receita muito antiga que pertencia à sua família.
Uns dias antes do Natal, os habitantes da vila já andavam todos atarefadíssimos com os preparativos para a consoada. Na fábrica, porque naquela época se vendiam imensos chocolates, trabalhava-se sem parar. Por esse motivo, a duquesa Cármen, que odiava o Natal, era um bocado avarenta e muito egoísta, decidiu ordenar que não daria a habitual folga no dia da véspera de Natal. Os empregados, coitados, apesar de contrariados e muito revoltados, não tiveram outra alternativa que não fosse obedecer.
Chegado esse dia, no silêncio da sua casa, a duquesa aconchegou-se no sofá e adormeceu. Subitamente ouviu uns ruídos que a despertaram sobressaltada e, à sua frente, estava uma mulher muito bonita de olhos azuis cintilantes. Pela aparência, logo viu que era uma fada, mas mesmo assim, perguntou: - Quem és tu?
- Sou a fada Margarida – respondeu muito risonha – e estou aqui para te mostrar um episódio do teu passado. Vem comigo!
A duquesa Cármen, como se tratava de uma fada não teve alternativa, obedeceu, e lá foram elas para o exterior da casa. Chegadas ao jardim, a Fada disse-lhe que espreitasse para dentro de um poço e olhasse bem para o fundo. A Duquesa, fazendo o que a fada lhe ordenara fixou a água fria e escura. Subitamente, sem perceber como, um clarão transformou a superfície da água num espelho, uma espécie de espelho do tempo em que ela pôde ver-se no salão da sua casa, no tempo em menina, junto da sua mãe, numa véspera de Natal há muito anos atrás.  A mãe de Cármen também era duquesa e também não gostava do Natal. Por isso, nessa noite, como sempre fazia, fosse qual fosse a época do ano, foi deitar-se cedo, deixando a filha  sozinha na sala. Esta, muito triste, como sabia que os meninos da sua idade costumavam passar a consoada com a família, saiu silenciosamente de casa e foi a casa da sua amiga Anita que, naturalmente, a convidou para cear e até para abrir alguns presentes.
Cármen Valverde, ao recordar este episódio, que afinal tinha sido o seu único Natal, ficou muito triste e com vontade de ir embora, mas a fada Margarida disse-lhe logo de seguida: - Espera, tenho outra coisa para te mostrar, segue-me! Caminharam na direcção da fábrica e, quando lá chegaram, pediu a Cármen que, sem fazer barulho, espreitasse por uma janela. Assim o fez e, surpresa das surpresas, os seus olhos ficaram arregalados ao ver que os empregados se entretinham a atirar bolinhas de farinha para um retrato seu. O seu choque foi ainda maior quando viu que até Anita, a sua melhor amiga de infância, participava na brincadeira. Cármen nem sequer sabia que Anita, a sua grande amiga que não via há tantos anos e lhe tinha dado o único Natal da sua vida, trabalhava na fábrica. Não se conteve, desfez-se em lágrimas e, desvairada, correu para casa. Porém, antes  de lá chegar, Margarida deteve-a e disse-lhe:
- Espera! Ainda não viste tudo.
Virou então a sua varinha para a parede de casa e Cármen, como se estivesse num cinema, pôde ver-se com aspecto maltratado e sozinha numa casa pobre e velha.
- Será este o teu futuro, se não mudares de atitude. – disse-lhe a fada Margarida
- Mas achas que ainda vou a tempo de mudar? – perguntou Cármen entre soluços.
- Todos têm uma segunda oportunidade na vida. Cabe-te a ti decidir se queres ir pelo caminho do Bem ou do Mal.
Cármen enxugou as lágrimas e pediu à fada que a ajudasse a preparar uma grande festa de Natal no seu palácio, para todos os habitantes da vila e, naturalmente, para os trabalhadores da fábrica.
Houve prendas para todos e, claro, muitos chocolates. A partir dessa altura, a fábrica de chocolates Duquesa passou a estar fechada na véspera do dia de Natal e ainda hoje, segundo ouvi dizer, toda a gente passa a consoada no palácio da duquesa.
Mariana Almeida